Pinterest: Bem-vindos a um mundo perfeito


2012-05-27


Artigo sobre a rede social Pinterest que saiu na revista Notícias Magazine do jornal Diário de Notícias onde apresento o meu ponto de vista sobre as possibilidades deste novo meio.

Visita guiada à nova rede social de que todos falam. Feita sobretudo de imagens de moda, joias, sapatos, casas desenhadas por génios da arquitetura, decoração de interiores, vistas de cortar a respiração, obras de arte. Aqui tudo é bonito e tudo dá vontade de colecionar.

«Temos de fazer qualquer coisa sobre o Pinterest», sugeriu a diretora executiva da Notícias Magazine. Primeiro, engoli em seco. Depois, pensei: «Estou há demasiado tempo a trabalhar sozinha.» Na verdade, não fazia a mais pálida ideia do que ela estava a falar. Mas não me denunciei: escrevi «Pinterest» no Google e logo descobri do que se tratava. «Fazes?», perguntou ela de seguida. «Faço, faço», apressei-me a responder, ainda às apalpadelas. 

Nos momentos que se seguiram, senti-me fascinada e traída, em simultâneo. Aquele mundo, à distância de nove letras digitadas no meu teclado, era demasiado fabuloso para que ainda não o conhecesse. Como é que nenhum dos meus amigos me tinha falado disso? De repente, era como se fosse uma rapariga do campo que tivesse vindo à cidade pela primeira vez. Uau! 

O que é, então, Pinterest? É uma rede social, só que em vez de frases e estados de espírito o que se partilha são fotografias. A ideia é partilhar o que se ama: lugares, produtos, coisas, espaços. E, mal se abre esta janela, há um mundo de imagens que vão de hotéis a sapatos, vistas deslumbrantes ou decoração de interiores. 

Cada membro pode colocar as suas próprias imagens, dizer que gosta das imagens de outros utilizadores (tal como no Facebook) e partilhar as que ache bonitas ou interessantes, colocando-as nas suas coleções, e ir assim saltitando de fotografia em fotografia, de utilizador em utilizador, numa rede que parece inesgotável. E ligada ao Twitter e ao Facebook, para que haja interação entre as comunidades. 

Criado em 2010 por Ben Silbermann, começou por funcionar apenas em circuito fechado. Consta que o norte-americano inscreveu os cinco mil primeiros membros, dando-lhes o seu número de telefone pessoal. Nove meses depois, o site já contava com dez mil membros. Em agosto de 2011, foi considerado um dos «50 Melhores Sites de 2011» pela revista Time. E em janeiro de 2012, a comScore (empresa líder na medição de audiências do mundo digital) informou que o site obteve um total de 11,7 milhões de membros únicos, tornando-se o mais rápido da história a quebrar a marca de mais de dez milhões de visitas únicas. Mais uma vez: uau! 

Silbermann diz que o Pinterest se inspira na tendência que o homem tem para colecionar o que lhe interessa. Além disso, funciona como um escaparate pessoal: «Quando alguém vai a casa de um amigo tem sempre curiosidade de ver o que ele tem nas estantes. Se puder pôr estas prateleiras na rede, vai chamar a atenção de um montão de gente», explicou ao The New York Times

Para se entrar neste novo mundo é preciso fazer a inscrição e aguardar o convite, que chega um ou dois dias depois, via e-mail. A ideia deve ser fazer-nos sentir ainda mais ansiosos por fazer parte da comunidade, uma vez que não me parece que andem propriamente a fazer o levantamento do nosso cadastro para perceberem se merecemos tamanho privilégio. 

O que me fascinou, desde o primeiro momento, foi a beleza das imagens. Praticamente não há lugar para o feio, nesta rede social. Pode passar-se dias inteiros em frente ao monitor sem encontrar uma fotografia que nos faça dizer: «Ai, que coisa feia.» Não. Sejam imagens de moda, de joias, sapatos, casas desenhadas por génios da arquitetura, vestidos de noiva, decoração de interiores, vistas de cortar a respiração sobre o mar ou sobre as serras, obras de arte... tudo é bonito, tudo dá vontade de colecionar. 

No dia em que descobri o Pinterest fiquei colada ao computador durante horas. De imagem em imagem, de «Like» em «Like», sempre a comentar para o lado «Olha só esta foto!», e dois minutos depois «Olha só mais esta», e três a seguir «E vê-me só isto!», e depois, já demasiado embaraçada para pedir nova espreitadela, limitava-me a exclamar alto novo espanto: «Ah... mas que beleza! Ah, mas que coisa fantástica!» (a ver se ganhava de novo audiência). 

Passado pouco tempo tinha várias pastas: uma com imagens de escadas (gosto de escadas e da metáfora que representam), uma com fotografias de casas de sonho, outra com imagens de piscinas brutais, outra com destinos maravilhosos que o mundo tem para oferecer, mais uma com sapatos (sou mulher, não é?), outra com vestidos de noiva (estou casada há 12 anos mas não resisto a um vestido comme il faut). 

A verdade é que, se o Facebook nos mostra como somos, com a partilha de fotografias pessoais e familiares e a divulgação dos nossos estados de alma em tempo real, o Pinterest tende a mostrar o que gostaríamos de ser: as casas onde gostávamos de morar, os sapatos que gostávamos de calçar, as viagens que sonhamos fazer. É uma espécie de rede social do parecer (ao contrário da rede de Zuckerberg, que será mais próxima do domínio do ser).

Nesse primeiro dia de descoberta temi o pior: e se fico agarrada a isto? Viciada nas janelas e janelas que davam para esse mundo sem fealdade? Aproveitei para procurar por lá algumas pessoas que juraria estarem ligadas, para saber se teriam conseguido ultrapassar a dependência. Ana Garcia Martins, autora de A Pipoca Mais Doce, o blogue nacional com mais visitas, confessou ainda não ter tido tempo para conhecer osite. Reconheço que senti um certo alívio. Afinal, não era a única criatura a desconhecer a nova rede social. Novo contacto, novo sossego: também a blogger Mónica Lice, do conhecido blogue de moda Mini Saia, revelou não estar a par. Uff... miúdas bem mais novas do que eu fora da tendência. Menos mal.

Já Edson Athayde considera que o Pinterest «é uma das mais simpáticas redes sociais de sempre». Para o publicitário brasileiro que fez sucesso em Portugal, «o modelo é de extrema complementaridade a alguns aspetos do Facebook e uma síntese no que toca à "montra de gostos" que o Facebook já tinha. Há, porém, alguns problemas: é difícil encontrar tempo para alimentar mais de uma rede social». Lá está. Mas Edson acrescenta um defeito à nova rede, para lá da falta de horas no dia: «Percebo que as pessoas queiram ver/ler coisas curtas, inspiradoras e bonitas. Mas incomoda-me que se viciem apenas nisso. Que passem a não dar atenção a nada que exija mais do que cinco minutos de leitura. O mundo não cabe todo em cinco minutos. Pelo menos, não o meu.»

«O Pinterest é mais uma rede social que veio explorar ao máximo o conceito de galeria fotográfica já existente noutras redes sociais», diz Luís Cordeiro, diretor criativo da agência de comunicação digital Bydas, especializada em redes sociais. «Há uma emulação perfeita do imaginário da porta do frigorífico lá de casa, onde, recorrendo a um íman, vamos colocando algumas fotografias de amigos, família e viagens, gerando um storytelling que partilhamos com os amigos que levamos lá a casa. O Pinterest permite-nos criar este mural, partilhá-lo e incentivar os utilizadores a encontrarem-lhe outras utilidades. Tem sido um sucesso porque usou uma estratégia muito semelhante ao Twitter, optimizando as caraterísticas virais e de partilha, e ofereceu ao utilizador uma experiência nova com um conceito antigo. A reinvenção de conceitos significa sempre êxito desde que desenvolvida com altos parâmetros de qualidade e marketing. O mesmo sucedeu com o instagram: não trouxe nada de novo, apenas re-inventou a maneira como as pessoas publicam fotografias.»

E no que diz respeito à comunicação digital? Será o Pinterest uma boa rede para comunicar? Luís Cordeiro diz que sim: «Se o crescimento se mantiver, irá popularizar-se como meio para publicidade e marketing, que neste momento é ainda liderado pelo Facebook, no caso das redes sociais, e pela Google, nas redes de pesquisa. Nós estamos sempre abertos a novos desafios e o Pinterest é neste momento o meio a que mais atenção temos dado, no sentido de percebermos como poderemos atuar sobre ele de forma original e potenciadora da mensagem de marca.»

Os dias têm passado e as minhas viagens pelo Pinterest têm diminuído. Felizmente, parece que nem tudo está perdido. Mantenho uma vida real, com direito a coisas bonitas e feias, e principalmente com coisas que demoram mais do que cinco minutos a degustar. Porque, como dizia Edson Athayde, o mundo não cabe todo em cinco minutos. Pelo menos (também) o meu.

 



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